São Paulo, 30 de setembro

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Querida v.,

 

Desabafo. Você não lerá esta carta. Eu me esqueci, esqueço com frequência, da volatilidade do tempo. A vida, nua, anda ligeira; não dá segunda chance.

Queria dizer que está tudo bem por aqui, que não se preocupe, que a gente dá um jeito nisso tudo. Aprendi com você sobre essa coisa de enfrentar a incerteza: sobre o tempo da plantação e sobre o descanso da terra; sobre a erva daninha e sobre a proveitosa colheita. Eu sei, o dia seguinte chega… Esperança nova para pensamentos cansados.

Você não lerá nada disso, porque entre os compromissos de ontem, de hoje e dos que eu sabia que teria amanhã, entre a festa e a preguiça, entre a vigília e o sono, esqueci de dizer que te amo.

Você não lerá sobre o quanto sofri antecipadamente a sua perda.  E sobre o vazio do dia em que ela finalmente chegou. Eu não te disse nada. Também não escrevi, não liguei, e nem fui aí dizer pessoalmente depois de um abraço forte.

É por isso que você não saberá desta dor que sinto. Ainda bem. Você não gostava nada-nada de  ver alguém sofrer.

Ainda assim, a saudade permanecerá aqui por muito tempo, marcada com ferro em brasa no coração em branco.

 

Adriana Aneli

 


Projeto Scenarium 6 missivas | Setembro -18
Participam: Lunna Guedes Maria Vitória | Mariana Gouveia | Obdulio Nunes Ortega

 

Existe uma mesa com papéis, livros e uma lareira apagada

adriana missiva 2

Querida L,

 

Sim, o inverno se foi. Ontem a luz alaranjada coloriu minha estante de livros e percorreu com ar de enfado as capas de cd.

Há um pressentimento de primavera que este ano me aflige: tudo tem pressa e mudanças ligeiras sobrecarregam minha percepção. É como se, ao acordar, não tivéssemos tempo para refletir sobre nossos sonhos, pelo fato de que já é hora de dormir de novo. A vida, nesta dinâmica sonâmbula, adia desejos e ponderações.

Podemos parar?

“Sempre há para onde fugir”… e me apego à sua verdade. Recolho em mim meios de injetar ânimo às fibras. Estou cansada. Estamos. Exauridos nesta engrenagem que nos consome por completo, ao tempo que acena com nossa desnecessidade futura.

O que ler? O que escrever? O que gritar?

São tantas as vozes que nos atordoam com suas impossibilidades; pensamentos jogados na cela escura, sem água, espaço ou alimento… Escoamos rapidamente nossas 24 poucas horas.

Já ouço os pássaros na madrugada. Também sei que, em seu voo estabanado, muitos se estilhaçarão nas vidraças.

É a primavera que se adianta… na tentativa débil de felicidade.

Da amiga, também um tanto estranha,

AA