“veredas”…

Querida L,

 

… A resposta começa mais tarde, neste dia silencioso de junho, em que o agito da cidade vacila. Nem sei ao certo por onde começar a semana, encarar o que resta do mês ou do ano.

Sou apenas eu. Não estamos todos assim… Estamos?

Seu verbo ir, não me parece fácil. Ando sem coragem, e me prendo ao conforto das coisas macias para horas que se provarão rudes. Banho morno, blusão de plush, café quente.

Notícias e desesperanças me parecem coisa antiga, eu te respondo. Leio A Peste, e nos vejo sobreviventes das mesmas páginas, o ciclo renovável da catástrofe. O ontem, o amanhã. Veja, L, que suas casas em pares perderam a batalha contra a segregação: the bosphorus istanbul residence surgiu por toda parte.

Talvez o sol aqueça mais quando o amanhã romper minhas nuvens. Talvez o exercício de ler seu mapa de vivências indique o caminho da poesia que teima em se afastar, nesta época em que aplico leis e normas jurídicas. O sertão é o mundo. E nisso você tem toda razão: é apenas mais um dia… E ele passa.

 

A.

 

Nessa manhã de outubro, respiro!

missiva de primavera

Querida L.,

Nestes dias em que exigências cotidianas se renovam em atropelo, suas linhas chegam com um aviso: preciso aprender a administrar o tempo.

Percebo que desde segunda-feira nada mais fiz do que cumprir compromissos. Ponto. Enquanto você capturava a cor do céu, o clima, marcas deixadas no asfalto desta mesma cidade que habito, eu estava alheia; deste início de primavera, chuvosa e fria, extraí nada além de informações sobre a roupa que eu deveria usar para sair de mim.

“Ainda somos os mesmos — avessos a mudança, ao novo…”

Recolho impressões de ontem para compartilhar com você a nostalgia dos clássicos… Mas confesso também minha curiosidade sobre o novo.

Fui a dois restaurantes, com cartas distintas: no almoço, um desfile de clássicos; à noite, a ousadia de pratos autorais. A constatação, ainda esta vez, de que amamos aquilo que é bem feito, tradicional ou novo – é neste prazer que nos refugiamos.

Ainda com a sensação de ingredientes, texturas, aromas e montagens na memória, acabo por concluir que cada prato, cada música, cada poema, cada livro… e não seus autores é que contam. Talvez por acreditar que a obra ao nascer ganha o mundo como ser completo e que, independente do nome do seu criador, começa em nós sua própria história.

Você me pergunta se sirvo a poesia? A poesia esfria no bule enquanto as inúmeras urgências de hoje me chamam. Espero que a inspiração me perdoe a falta de modos, e possa, em sua generosidade, voltar a me receber em breve.

com amor,

AA

As horas estão escritas num futuro impossível

adriana missiva.png


… borboleta pousa nos pés descalços
sente a doçura do rio
futuro
que escapou por entre frestas da sua jaula.


 

Querida L.,

 

“A imaginar um livro-insano-rebelde, com toda a ‘liberdade’ que me permito”….

Sua carta percorreu, durante toda a semana, o labirinto encantado das minhas ideias. Diversas vezes sentei à frente do papel e esbocei uma resposta, mas suas palavras me calaram; “insano” … “rebelde” … E sem disciplinar minhas mãos, impulsos e fibras direcionaram minha vontade: aceitei mais este desafio.

Porque havíamos combinado que 2017 não seria um ano para meus livros.

Mas ele estava lá. Insano e rebelde, meu exercício pessoal de liberdade, nascido e criado… intensificado… A contar de 2006…

Um livro ainda não publicado é um trabalho contínuo, esperançado.

…Este grito que ecoa por muito tempo dentro da noite escura, desde a janela em que nos debruçamos para entender o mundo até o horizonte miúdo em que os poemas ganham suas próprias asas. E caem… ou aprendem a voar.

Reconhecer o tempo: o nosso, e também o dos outros. E compreender que uma vida inteira é composta por muitas esperas…”

Quais caminhos este livro percorreu até chegar às suas mãos? Traz a alma rasgada, pés descalços, o corpo forjado em ilusões puídas…

Finalmente se entrega à tecelã de sonhos. Sob suas ideias, cinderela ganha brilho e coragem, uma carruagem mágica… A impressão de descobrir-se incrivelmente única sob anos de pó cinzento.

O Sol. A tarde…. Não posso sonhar novembro melhor do que este. É o mês do seu aniversário… As horas estão escritas em um futuro impossível… Mas agora sei que ele chegará.

Existe uma mesa com papéis, livros e uma lareira apagada

adriana missiva 2

Querida L,

 

Sim, o inverno se foi. Ontem a luz alaranjada coloriu minha estante de livros e percorreu com ar de enfado as capas de cd.

Há um pressentimento de primavera que este ano me aflige: tudo tem pressa e mudanças ligeiras sobrecarregam minha percepção. É como se, ao acordar, não tivéssemos tempo para refletir sobre nossos sonhos, pelo fato de que já é hora de dormir de novo. A vida, nesta dinâmica sonâmbula, adia desejos e ponderações.

Podemos parar?

“Sempre há para onde fugir”… e me apego à sua verdade. Recolho em mim meios de injetar ânimo às fibras. Estou cansada. Estamos. Exauridos nesta engrenagem que nos consome por completo, ao tempo que acena com nossa desnecessidade futura.

O que ler? O que escrever? O que gritar?

São tantas as vozes que nos atordoam com suas impossibilidades; pensamentos jogados na cela escura, sem água, espaço ou alimento… Escoamos rapidamente nossas 24 poucas horas.

Já ouço os pássaros na madrugada. Também sei que, em seu voo estabanado, muitos se estilhaçarão nas vidraças.

É a primavera que se adianta… na tentativa débil de felicidade.

Da amiga, também um tanto estranha,

AA