“veredas”…

Querida L,

 

… A resposta começa mais tarde, neste dia silencioso de junho, em que o agito da cidade vacila. Nem sei ao certo por onde começar a semana, encarar o que resta do mês ou do ano.

Sou apenas eu. Não estamos todos assim… Estamos?

Seu verbo ir, não me parece fácil. Ando sem coragem, e me prendo ao conforto das coisas macias para horas que se provarão rudes. Banho morno, blusão de plush, café quente.

Notícias e desesperanças me parecem coisa antiga, eu te respondo. Leio A Peste, e nos vejo sobreviventes das mesmas páginas, o ciclo renovável da catástrofe. O ontem, o amanhã. Veja, L, que suas casas em pares perderam a batalha contra a segregação: the bosphorus istanbul residence surgiu por toda parte.

Talvez o sol aqueça mais quando o amanhã romper minhas nuvens. Talvez o exercício de ler seu mapa de vivências indique o caminho da poesia que teima em se afastar, nesta época em que aplico leis e normas jurídicas. O sertão é o mundo. E nisso você tem toda razão: é apenas mais um dia… E ele passa.

 

A.

 

Ao pensar poesia, altero a percepção do mundo…

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“As pessoas andam muito ocupadas com a realidade”, ela me diz, enquanto lamento (mais esta vez) a falta de tempo para me dedicar aos “grandes projetos” – que ainda estão na cabeça e nem chegaram à fase da gaveta.

(Ela lida bem com o tempo. Eu continuo tentando).

Passo os dias a me equilibrar na navalha, entre um desgaste emocional e outro atendimento de telemarketing, notícias nauseantes do país, a existência espremida entre as horas… Como uma profissão.

Se a realidade é tão ruim, escrever é uma forma de transformá-la? Cabe nesta ideia esperança, que nasce no exato instante em que rabisco esta crônica desajeitada: com as palavras, ainda tenho meu melhor diálogo.

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Ao pensar poesia, altero a percepção do mundo: crio fatos a serem admirados, pessoas em  gestos inteiros – para além de juízos e condenações, exigências ou erros…

Tempo…  E silêncio: a preciosa sombra que se lança sobre o óbvio para devolver-lhe o mistério. Recolher-se ao recôndito de um mundo pequeno e particular é sentir a brisa fresca que escapa pela porta da varanda com cheio de flor recém-nascida. E nos envolve.

Ao nos fazermos assim tão sensíveis, derramamos nosso olhar gentil sobre todas as coisas, para que o bom e o belo se multiplique.

Furto alguns minutos da minha correria para deixar meu pensamento falar comigo. Ele coloca as mãos sobre os meus ombros e me diz que vai ficar tudo bem.

Isso me acalma.