São Paulo, 30 de setembro

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Querida v.,

 

Desabafo. Você não lerá esta carta. Eu me esqueci, esqueço com frequência, da volatilidade do tempo. A vida, nua, anda ligeira; não dá segunda chance.

Queria dizer que está tudo bem por aqui, que não se preocupe, que a gente dá um jeito nisso tudo. Aprendi com você sobre essa coisa de enfrentar a incerteza: sobre o tempo da plantação e sobre o descanso da terra; sobre a erva daninha e sobre a proveitosa colheita. Eu sei, o dia seguinte chega… Esperança nova para pensamentos cansados.

Você não lerá nada disso, porque entre os compromissos de ontem, de hoje e dos que eu sabia que teria amanhã, entre a festa e a preguiça, entre a vigília e o sono, esqueci de dizer que te amo.

Você não lerá sobre o quanto sofri antecipadamente a sua perda.  E sobre o vazio do dia em que ela finalmente chegou. Eu não te disse nada. Também não escrevi, não liguei, e nem fui aí dizer pessoalmente depois de um abraço forte.

É por isso que você não saberá desta dor que sinto. Ainda bem. Você não gostava nada-nada de  ver alguém sofrer.

Ainda assim, a saudade permanecerá aqui por muito tempo, marcada com ferro em brasa no coração em branco.

 

Adriana Aneli

 


Projeto Scenarium 6 missivas | Setembro -18
Participam: Lunna Guedes Maria Vitória | Mariana Gouveia | Obdulio Nunes Ortega