O Sol da Tarde

(Konstantinos Kavafis)

 

o sol da tarde 2

 

Este quarto, como o conheço bem.
Agora alugam-se quer este quer o do lado
para escritórios comerciais. A casa toda tornou-se
escritórios de intermediários, e de comerciantes, e Sociedades.

Ah este quarto, não é nada estranho.

Perto da porta por aqui estava o sofá,
e diante dele um tapete turco;
ao pé a prateleira com duas jarras amarelas.
À direita; não, em frente, um armário com espelho.
Ao meio a sua mesa de escrever;
e três grandes cadeiras de vime.
Ao lado da janela estava a cama
onde nos amámos tantas vezes.

Estarão ainda os coitados nalgum lugar.

Ao lado da janela estava a cama;
o sol da tarde chegava-lhe até metade.

… De tarde quatro horas, tínhamo-nos separado
por uma semana só… Ai de mim,
aquela semana durou para sempre.

O sol que fraqueja

cigarraescorrego
viscosa fruta
decompõe
daqui vejo asas em formação
remota palavra
presa nos dentes.

 


 

O sol da tarde, de Adriana Aneli, é um livro que escapa, com movimentos lentos, mas densos (tensos), das diversas tendências da poesia contemporânea brasileira. Tem, a provar sua singularidade, uma atmosfera imersa em silêncio, em gestos que ora provam o imenso desafio do amor, ora provam que ele está à prova.

O corpo da protagonista (que só protagoniza em si mesma aquilo que para o compartilhamento sempre terá muito de segredo) vive a sensorialidade plena de um desejo imerso na hesitação.

Inquieta, no entanto paralisa seus gestos para assim dar-se na hora que é chegada. Essa hora parece não vir nunca. A réstia de sol, fresta de luz que não se distancia de um frio metafórico e nem por isso menos real, anuncia que as possibilidades ainda não se acabaram. Mas trata-se de um querer onde há medo e nesse medo há mais querer. Cada poema parece seguir ao outro, e assim tal lírica revela-se no conjunto completo do livro, e não só poema a poema. Embora, claro, cada poema é um artefato em si, escrito num ritmo sussurrado – e atônito.

Sintética, elíptica, a poeta mostra-se numa sintaxe capaz de chegar ao estranhamento, esse efeito capaz de causar no leitor uma espécie de grave encantamento. Grave no sentido de profundo, porque quase verso a verso temos uma cena que sobretudo aqui nega-se a qualquer evidência.

O leitor que a busque no poema. Embora ainda seja cedo, eu ousaria afirmar sobre seus versos expressões como “singular”, “inusitados”, “dicção imprevisível”, “sintaxe entre um intimismo inconfessável e um desmoronamento do discurso” e “poema em fuga”.

O livro conta uma história, e é dividido em duas partes, cada uma associada à sua epígrafe. Num dos poemas (“mas quando vem”), a esquecida e enlouquecida Camille Claudel é personagem que poderia assumir o discurso poético, amoroso. O desfecho traz à tona um desespero inconsciente, rindo mesmo frente à iminência do risco.

Alquimia entre a transpiração (o suor emocional) e o gozo, numa dicção que jamais a torna explícita, o projeto é extremamente ousado e de uma delicadeza única.

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Paulo Bentancur…. em dezembro de 2014.

 

O SOL DA TARDE, poemas de Adriana Aneli

Editora: Scenarium... 2017

Ao pensar poesia, altero a percepção do mundo…

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“As pessoas andam muito ocupadas com a realidade”, ela me diz, enquanto lamento (mais esta vez) a falta de tempo para me dedicar aos “grandes projetos” – que ainda estão na cabeça e nem chegaram à fase da gaveta.

(Ela lida bem com o tempo. Eu continuo tentando).

Passo os dias a me equilibrar na navalha, entre um desgaste emocional e outro atendimento de telemarketing, notícias nauseantes do país, a existência espremida entre as horas… Como uma profissão.

Se a realidade é tão ruim, escrever é uma forma de transformá-la? Cabe nesta ideia esperança, que nasce no exato instante em que rabisco esta crônica desajeitada: com as palavras, ainda tenho meu melhor diálogo.

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Ao pensar poesia, altero a percepção do mundo: crio fatos a serem admirados, pessoas em  gestos inteiros – para além de juízos e condenações, exigências ou erros…

Tempo…  E silêncio: a preciosa sombra que se lança sobre o óbvio para devolver-lhe o mistério. Recolher-se ao recôndito de um mundo pequeno e particular é sentir a brisa fresca que escapa pela porta da varanda com cheio de flor recém-nascida. E nos envolve.

Ao nos fazermos assim tão sensíveis, derramamos nosso olhar gentil sobre todas as coisas, para que o bom e o belo se multiplique.

Furto alguns minutos da minha correria para deixar meu pensamento falar comigo. Ele coloca as mãos sobre os meus ombros e me diz que vai ficar tudo bem.

Isso me acalma.

As Canções de Bilitis, de Pierre Louÿs

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Aos 14 anos de idade tive o privilégio de conhecer um grande poeta.  Tejo Damasceno. Dele, pouco ou quase nada foi publicado. Mas seus poemas delicados e precisos, cotidianos e universais são inesquecíveis para quem teve a sorte de tê-los nas mãos algum dia.

Nossa amizade nasceu e cresceu entre cartas longas e perfumadas, datilografadas em papel bíblia. Cartas que chegavam de Porto Alegre em envelopes elegantes. Trazendo: poemas, novidades, histórias, reflexões e para a delícia máxima de uma adolescente, a tradução que o poeta fazia do livro: ‘As Canções de Bilitis’, do poeta francês Pierre Louÿs, publicado pela editora Paraula em 1994.

Este diálogo, nunca esquecido, perdeu-se por entre caminhos que optamos por não seguir e que, felizmente, retomamos agora, 20 anos depois!

Tenho um exemplar das Canções… é daqueles livros pelos quais a gente se apaixona, namora, pede em casamento. Eu, por minha vez, comprei uma escrivaninha com estante, restaurei, apenas para colocar meu exemplar no lugar especial que ele deve ocupar.

Um pouco sobre o autor e sua brincadeira literária:

Pierre Louÿs era um estudioso da antiguidade grega. Esteta e maníaco literário, dedicou-se a traduzir textos antigos. Em Paris, 1894, anunciou a descoberta arqueológica do túmulo e poemas gregos de Bilitis, que ele então traduziu. O sucesso entre os helenistas foi estrondoso, e Pierre preferiu guardar até às vésperas de sua morte, em 1925, o segredo de que a história da personagem e suas canções eram, na verdade, de sua lavra.


 

Seguem alguns cantos, para que possam dividir comigo o sabor desse livro:

A CHUVA

A chuva fina molhou todas as coisas, devagarinho, e
em silêncio. Chove ainda um pouco. Vou passear sob
as árvores. Com os pés descalços, para não manchar meus
sapatos.

A chuva na primavera é deliciosa. Os galhos carregados
de flores molhadas têm um perfume que me atordoa. Vê-
se brilhando ao sol a pele delicada das cascas.

Ai! Quantas flores sobre a terra! Tende piedade das flores
caídas. Não se deve varrê-las e misturá-las à lama; mas
conservá-las para as abelhas.

Os escaravelhos e as lesmas atravessam o caminho entre
as poças d´água; não quero pisar neles, sem assustar o
lagarto dourado que pisca e se estira.


 

BILITIS

Uma mulher se envolve em lã branca. Outra se veste de
seda e ouro. Outra se cobre de flores, folhas verdes e uvas.

Quanto a mim, não saberia viver senão nua. Meu amante,
toma-me como eu sou: sem vestes, nem jóias, nem
sandálias, eis Bilitis sozinha.

Meus cabelos são negros de seu negror e meus lábios
vermelhos de seu vermelho. Meus cachos flutuam ao redor
de mim, redondos e livres como plumas.

Toma-se tal qual minha mãe me fez, numa noite de
amor longínqua, e se assim te agrado, não esquece de me
dizer.


 

A CARTA PERDIDA

Ai de mim! perdi sua carta. Eu a guardava entre a pele
e a túnica, sob o calor do meu seio. Corri ela terá caído.

Vou retornar os meus passos: se alguém a en-
contrasse, contaria à minha mãe e eu seria fustigada diante
das minhas irmãs zombeteiras.

Se é um homem que a encontrou, ele a devolverá; ou
até, se quiser falar comigo escondido, conheço o meio de tirá-la.

Se uma mulher que a leu, oh Zeus Guardião, protege-me!
Pois ela contará a todo mundo,
ou roubará meu amante.


 

CANÇÃO

A noite é tão profunda que penetra em meus olhos. –
Não enxergarás o caminho. Te perderás na floresta.

– O ruído das quedas d’água enche meus ouvidos. –
Não escutarias a voz do teu amante, estivesse ele a vinte
passos daqui.

– O cheiro das flores é tão forte que desfaleço e vou
cair. – Se ele cruzasse o meu caminho, não o perceberias.

– Ah! Ele está bem longe daqui, do outro lado da
montanha; mas eu o vejo e escuto e o percebo como se
me tocasse.

 


Tradução, prefácio e glossário por Tejo Damasceno. As ilustrações são de Balluriau.