Ah, esse sol…

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“N’ o sol da tarde a metáfora das asas é associada à ideia de renascer e apodrecer, eis que, aquilo que morre, deve morrer definitivamente, deixar de ser para que possa surgir o novo: “… viscosa fruta/ se descompõe/ daqui vejo asas em formação/ remota palavra…” Quando leio o sol da tarde sinto uma voz feminina que luta entre nervos estirados e palmas abertas espiando sua libertação, sua música, borboleta…
Uma poeta, uma mulher que decide mergulhar no reconhecimento da sua linguagem profunda. Momento poético em que a experiência é sonoridade, memória sensível.”

Trecho do prefácio do livro ‘o sol da tarde’, d Anahi Celeste Cao

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Do não-lançamento do Sol da Tarde…

O sol da tarde é livro de recolhimento. Desenhado nos tons escuros da dor e do medo. Tempo de maturação e rumores.

O ritmo tem a delicadeza da respiração, mas nele, o pensamento está em carne viva. Ali, onde cada palavra é áspera e a memória é pontiaguda, o amor débil e tênue espia.

Na tarde morna, sussurrado entre cortinas de voal, surge o Sol – para logo em seguida se por. Conversa entre mim e aquele que se aventurar por meus versos de penumbra… Sem euforia. E em silêncio.

O sol da tarde está à venda através deste link:

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O Sol da Tarde

(Konstantinos Kavafis)

 

o sol da tarde 2

 

Este quarto, como o conheço bem.
Agora alugam-se quer este quer o do lado
para escritórios comerciais. A casa toda tornou-se
escritórios de intermediários, e de comerciantes, e Sociedades.

Ah este quarto, não é nada estranho.

Perto da porta por aqui estava o sofá,
e diante dele um tapete turco;
ao pé a prateleira com duas jarras amarelas.
À direita; não, em frente, um armário com espelho.
Ao meio a sua mesa de escrever;
e três grandes cadeiras de vime.
Ao lado da janela estava a cama
onde nos amámos tantas vezes.

Estarão ainda os coitados nalgum lugar.

Ao lado da janela estava a cama;
o sol da tarde chegava-lhe até metade.

… De tarde quatro horas, tínhamo-nos separado
por uma semana só… Ai de mim,
aquela semana durou para sempre.

Um livro que dói,

o sol da tarde
Imagem daqui

“… Gracias doy a la desgracia/Y a la mano con puñal,
Porque me mató tan mal,
Y seguí cantando”

Maria Elena Walsh


 

Há o fato e o labirinto de becos que o encerra. Há o tempo em que calar é reunir palavras, novelo a desenrolar por entre perdas e dores aprisionadas.

Para derrotar o mito é preciso se concentrar em si mesmo. Submergir para chegar ao centro das incertezas… Ali e a sós, ferir e ser ferido.

O sol da tarde é este exercício de estranhamento: poemas — um emaranhado de medo e de morte em fio dourado, a levar às entranhas do apodrecimento e daí novamente à luz…  o abandono de Ariadne.

Neste tempo de adormecimento, a coragem está em romper a superfície calma dos dias, abandonar a casca para gritar, em roupas novas, sobre um passado que ainda sufoca.

 

O sol da tarde (Ed. Scenarium, 2017)

poemas em português
versão em espanhol por Mariela Bello

O sol que fraqueja

cigarraescorrego
viscosa fruta
decompõe
daqui vejo asas em formação
remota palavra
presa nos dentes.

 


 

O sol da tarde, de Adriana Aneli, é um livro que escapa, com movimentos lentos, mas densos (tensos), das diversas tendências da poesia contemporânea brasileira. Tem, a provar sua singularidade, uma atmosfera imersa em silêncio, em gestos que ora provam o imenso desafio do amor, ora provam que ele está à prova.

O corpo da protagonista (que só protagoniza em si mesma aquilo que para o compartilhamento sempre terá muito de segredo) vive a sensorialidade plena de um desejo imerso na hesitação.

Inquieta, no entanto paralisa seus gestos para assim dar-se na hora que é chegada. Essa hora parece não vir nunca. A réstia de sol, fresta de luz que não se distancia de um frio metafórico e nem por isso menos real, anuncia que as possibilidades ainda não se acabaram. Mas trata-se de um querer onde há medo e nesse medo há mais querer. Cada poema parece seguir ao outro, e assim tal lírica revela-se no conjunto completo do livro, e não só poema a poema. Embora, claro, cada poema é um artefato em si, escrito num ritmo sussurrado – e atônito.

Sintética, elíptica, a poeta mostra-se numa sintaxe capaz de chegar ao estranhamento, esse efeito capaz de causar no leitor uma espécie de grave encantamento. Grave no sentido de profundo, porque quase verso a verso temos uma cena que sobretudo aqui nega-se a qualquer evidência.

O leitor que a busque no poema. Embora ainda seja cedo, eu ousaria afirmar sobre seus versos expressões como “singular”, “inusitados”, “dicção imprevisível”, “sintaxe entre um intimismo inconfessável e um desmoronamento do discurso” e “poema em fuga”.

O livro conta uma história, e é dividido em duas partes, cada uma associada à sua epígrafe. Num dos poemas (“mas quando vem”), a esquecida e enlouquecida Camille Claudel é personagem que poderia assumir o discurso poético, amoroso. O desfecho traz à tona um desespero inconsciente, rindo mesmo frente à iminência do risco.

Alquimia entre a transpiração (o suor emocional) e o gozo, numa dicção que jamais a torna explícita, o projeto é extremamente ousado e de uma delicadeza única.

borbolea

Paulo Bentancur…. em dezembro de 2014.

 

O SOL DA TARDE, poemas de Adriana Aneli

Editora: Scenarium... 2017