Ao pensar poesia, altero a percepção do mundo…

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“As pessoas andam muito ocupadas com a realidade”, ela me diz, enquanto lamento (mais esta vez) a falta de tempo para me dedicar aos “grandes projetos” – que ainda estão na cabeça e nem chegaram à fase da gaveta.

(Ela lida bem com o tempo. Eu continuo tentando).

Passo os dias a me equilibrar na navalha, entre um desgaste emocional e outro atendimento de telemarketing, notícias nauseantes do país, a existência espremida entre as horas… Como uma profissão.

Se a realidade é tão ruim, escrever é uma forma de transformá-la? Cabe nesta ideia esperança, que nasce no exato instante em que rabisco esta crônica desajeitada: com as palavras, ainda tenho meu melhor diálogo.

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Ao pensar poesia, altero a percepção do mundo: crio fatos a serem admirados, pessoas em  gestos inteiros – para além de juízos e condenações, exigências ou erros…

Tempo…  E silêncio: a preciosa sombra que se lança sobre o óbvio para devolver-lhe o mistério. Recolher-se ao recôndito de um mundo pequeno e particular é sentir a brisa fresca que escapa pela porta da varanda com cheio de flor recém-nascida. E nos envolve.

Ao nos fazermos assim tão sensíveis, derramamos nosso olhar gentil sobre todas as coisas, para que o bom e o belo se multiplique.

Furto alguns minutos da minha correria para deixar meu pensamento falar comigo. Ele coloca as mãos sobre os meus ombros e me diz que vai ficar tudo bem.

Isso me acalma.

— A LEITURA QUE FAÇO DE MIM MESMA

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Recuar. Não deixa de ser uma tática.

Neste tempo hostil, leio a mim mesma com alguma cautela. Há esta tristeza coletiva e a fúria cínica que dá a meu outubro um traço de melancolia.

Censura. Moral. O certo. O errado. As pessoas de bem… a vida que segue entrincheirada, enquanto nossos pés de barro derretem em botas de guerra – não nos incomoda nos outros questões mal resolvidas em nós mesmos?

Mergulhar para além do texto e deixar transbordar emoções. Transformar a arte em diálogo, romper a preguiça – nossa quarta parede. São planos.

Outubro é meu mês de recolhimento. É preciso tempo para gestar mudanças e silêncio para encontrar palavras que façam algum sentido. A partir delas, reconstruir meu mundo, criar personagens, dar a eles voz e possibilidades que se calam em minha garganta, porque ainda não chegou a hora.