Nessa manhã de outubro, respiro!

missiva de primavera

Querida L.,

Nestes dias em que exigências cotidianas se renovam em atropelo, suas linhas chegam com um aviso: preciso aprender a administrar o tempo.

Percebo que desde segunda-feira nada mais fiz do que cumprir compromissos. Ponto. Enquanto você capturava a cor do céu, o clima, marcas deixadas no asfalto desta mesma cidade que habito, eu estava alheia; deste início de primavera, chuvosa e fria, extraí nada além de informações sobre a roupa que eu deveria usar para sair de mim.

“Ainda somos os mesmos — avessos a mudança, ao novo…”

Recolho impressões de ontem para compartilhar com você a nostalgia dos clássicos… Mas confesso também minha curiosidade sobre o novo.

Fui a dois restaurantes, com cartas distintas: no almoço, um desfile de clássicos; à noite, a ousadia de pratos autorais. A constatação, ainda esta vez, de que amamos aquilo que é bem feito, tradicional ou novo – é neste prazer que nos refugiamos.

Ainda com a sensação de ingredientes, texturas, aromas e montagens na memória, acabo por concluir que cada prato, cada música, cada poema, cada livro… e não seus autores é que contam. Talvez por acreditar que a obra ao nascer ganha o mundo como ser completo e que, independente do nome do seu criador, começa em nós sua própria história.

Você me pergunta se sirvo a poesia? A poesia esfria no bule enquanto as inúmeras urgências de hoje me chamam. Espero que a inspiração me perdoe a falta de modos, e possa, em sua generosidade, voltar a me receber em breve.

com amor,

AA

As Canções de Bilitis, de Pierre Louÿs

canções
Aos 14 anos de idade tive o privilégio de conhecer um grande poeta.  Tejo Damasceno. Dele, pouco ou quase nada foi publicado. Mas seus poemas delicados e precisos, cotidianos e universais são inesquecíveis para quem teve a sorte de tê-los nas mãos algum dia.

Nossa amizade nasceu e cresceu entre cartas longas e perfumadas, datilografadas em papel bíblia. Cartas que chegavam de Porto Alegre em envelopes elegantes. Trazendo: poemas, novidades, histórias, reflexões e para a delícia máxima de uma adolescente, a tradução que o poeta fazia do livro: ‘As Canções de Bilitis’, do poeta francês Pierre Louÿs, publicado pela editora Paraula em 1994.

Este diálogo, nunca esquecido, perdeu-se por entre caminhos que optamos por não seguir e que, felizmente, retomamos agora, 20 anos depois!

Tenho um exemplar das Canções… é daqueles livros pelos quais a gente se apaixona, namora, pede em casamento. Eu, por minha vez, comprei uma escrivaninha com estante, restaurei, apenas para colocar meu exemplar no lugar especial que ele deve ocupar.

Um pouco sobre o autor e sua brincadeira literária:

Pierre Louÿs era um estudioso da antiguidade grega. Esteta e maníaco literário, dedicou-se a traduzir textos antigos. Em Paris, 1894, anunciou a descoberta arqueológica do túmulo e poemas gregos de Bilitis, que ele então traduziu. O sucesso entre os helenistas foi estrondoso, e Pierre preferiu guardar até às vésperas de sua morte, em 1925, o segredo de que a história da personagem e suas canções eram, na verdade, de sua lavra.


 

Seguem alguns cantos, para que possam dividir comigo o sabor desse livro:

A CHUVA

A chuva fina molhou todas as coisas, devagarinho, e
em silêncio. Chove ainda um pouco. Vou passear sob
as árvores. Com os pés descalços, para não manchar meus
sapatos.

A chuva na primavera é deliciosa. Os galhos carregados
de flores molhadas têm um perfume que me atordoa. Vê-
se brilhando ao sol a pele delicada das cascas.

Ai! Quantas flores sobre a terra! Tende piedade das flores
caídas. Não se deve varrê-las e misturá-las à lama; mas
conservá-las para as abelhas.

Os escaravelhos e as lesmas atravessam o caminho entre
as poças d´água; não quero pisar neles, sem assustar o
lagarto dourado que pisca e se estira.


 

BILITIS

Uma mulher se envolve em lã branca. Outra se veste de
seda e ouro. Outra se cobre de flores, folhas verdes e uvas.

Quanto a mim, não saberia viver senão nua. Meu amante,
toma-me como eu sou: sem vestes, nem jóias, nem
sandálias, eis Bilitis sozinha.

Meus cabelos são negros de seu negror e meus lábios
vermelhos de seu vermelho. Meus cachos flutuam ao redor
de mim, redondos e livres como plumas.

Toma-se tal qual minha mãe me fez, numa noite de
amor longínqua, e se assim te agrado, não esquece de me
dizer.


 

A CARTA PERDIDA

Ai de mim! perdi sua carta. Eu a guardava entre a pele
e a túnica, sob o calor do meu seio. Corri ela terá caído.

Vou retornar os meus passos: se alguém a en-
contrasse, contaria à minha mãe e eu seria fustigada diante
das minhas irmãs zombeteiras.

Se é um homem que a encontrou, ele a devolverá; ou
até, se quiser falar comigo escondido, conheço o meio de tirá-la.

Se uma mulher que a leu, oh Zeus Guardião, protege-me!
Pois ela contará a todo mundo,
ou roubará meu amante.


 

CANÇÃO

A noite é tão profunda que penetra em meus olhos. –
Não enxergarás o caminho. Te perderás na floresta.

– O ruído das quedas d’água enche meus ouvidos. –
Não escutarias a voz do teu amante, estivesse ele a vinte
passos daqui.

– O cheiro das flores é tão forte que desfaleço e vou
cair. – Se ele cruzasse o meu caminho, não o perceberias.

– Ah! Ele está bem longe daqui, do outro lado da
montanha; mas eu o vejo e escuto e o percebo como se
me tocasse.

 


Tradução, prefácio e glossário por Tejo Damasceno. As ilustrações são de Balluriau.

As horas estão escritas num futuro impossível

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… borboleta pousa nos pés descalços
sente a doçura do rio
futuro
que escapou por entre frestas da sua jaula.


 

Querida L.,

 

“A imaginar um livro-insano-rebelde, com toda a ‘liberdade’ que me permito”….

Sua carta percorreu, durante toda a semana, o labirinto encantado das minhas ideias. Diversas vezes sentei à frente do papel e esbocei uma resposta, mas suas palavras me calaram; “insano” … “rebelde” … E sem disciplinar minhas mãos, impulsos e fibras direcionaram minha vontade: aceitei mais este desafio.

Porque havíamos combinado que 2017 não seria um ano para meus livros.

Mas ele estava lá. Insano e rebelde, meu exercício pessoal de liberdade, nascido e criado… intensificado… A contar de 2006…

Um livro ainda não publicado é um trabalho contínuo, esperançado.

…Este grito que ecoa por muito tempo dentro da noite escura, desde a janela em que nos debruçamos para entender o mundo até o horizonte miúdo em que os poemas ganham suas próprias asas. E caem… ou aprendem a voar.

Reconhecer o tempo: o nosso, e também o dos outros. E compreender que uma vida inteira é composta por muitas esperas…”

Quais caminhos este livro percorreu até chegar às suas mãos? Traz a alma rasgada, pés descalços, o corpo forjado em ilusões puídas…

Finalmente se entrega à tecelã de sonhos. Sob suas ideias, cinderela ganha brilho e coragem, uma carruagem mágica… A impressão de descobrir-se incrivelmente única sob anos de pó cinzento.

O Sol. A tarde…. Não posso sonhar novembro melhor do que este. É o mês do seu aniversário… As horas estão escritas em um futuro impossível… Mas agora sei que ele chegará.