Nessa manhã de outubro, respiro!

missiva de primavera

Querida L.,

Nestes dias em que exigências cotidianas se renovam em atropelo, suas linhas chegam com um aviso: preciso aprender a administrar o tempo.

Percebo que desde segunda-feira nada mais fiz do que cumprir compromissos. Ponto. Enquanto você capturava a cor do céu, o clima, marcas deixadas no asfalto desta mesma cidade que habito, eu estava alheia; deste início de primavera, chuvosa e fria, extraí nada além de informações sobre a roupa que eu deveria usar para sair de mim.

“Ainda somos os mesmos — avessos a mudança, ao novo…”

Recolho impressões de ontem para compartilhar com você a nostalgia dos clássicos… Mas confesso também minha curiosidade sobre o novo.

Fui a dois restaurantes, com cartas distintas: no almoço, um desfile de clássicos; à noite, a ousadia de pratos autorais. A constatação, ainda esta vez, de que amamos aquilo que é bem feito, tradicional ou novo – é neste prazer que nos refugiamos.

Ainda com a sensação de ingredientes, texturas, aromas e montagens na memória, acabo por concluir que cada prato, cada música, cada poema, cada livro… e não seus autores é que contam. Talvez por acreditar que a obra ao nascer ganha o mundo como ser completo e que, independente do nome do seu criador, começa em nós sua própria história.

Você me pergunta se sirvo a poesia? A poesia esfria no bule enquanto as inúmeras urgências de hoje me chamam. Espero que a inspiração me perdoe a falta de modos, e possa, em sua generosidade, voltar a me receber em breve.

com amor,

AA

As horas estão escritas num futuro impossível

adriana missiva.png


… borboleta pousa nos pés descalços
sente a doçura do rio
futuro
que escapou por entre frestas da sua jaula.


 

Querida L.,

 

“A imaginar um livro-insano-rebelde, com toda a ‘liberdade’ que me permito”….

Sua carta percorreu, durante toda a semana, o labirinto encantado das minhas ideias. Diversas vezes sentei à frente do papel e esbocei uma resposta, mas suas palavras me calaram; “insano” … “rebelde” … E sem disciplinar minhas mãos, impulsos e fibras direcionaram minha vontade: aceitei mais este desafio.

Porque havíamos combinado que 2017 não seria um ano para meus livros.

Mas ele estava lá. Insano e rebelde, meu exercício pessoal de liberdade, nascido e criado… intensificado… A contar de 2006…

Um livro ainda não publicado é um trabalho contínuo, esperançado.

…Este grito que ecoa por muito tempo dentro da noite escura, desde a janela em que nos debruçamos para entender o mundo até o horizonte miúdo em que os poemas ganham suas próprias asas. E caem… ou aprendem a voar.

Reconhecer o tempo: o nosso, e também o dos outros. E compreender que uma vida inteira é composta por muitas esperas…”

Quais caminhos este livro percorreu até chegar às suas mãos? Traz a alma rasgada, pés descalços, o corpo forjado em ilusões puídas…

Finalmente se entrega à tecelã de sonhos. Sob suas ideias, cinderela ganha brilho e coragem, uma carruagem mágica… A impressão de descobrir-se incrivelmente única sob anos de pó cinzento.

O Sol. A tarde…. Não posso sonhar novembro melhor do que este. É o mês do seu aniversário… As horas estão escritas em um futuro impossível… Mas agora sei que ele chegará.