Quem viaja tem histórias para contar

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“Quem ama  a áurea moderação, vai seguro,
Evita os escombros da casa destruída,
Evita sóbrio o invejável palácio.

Amiúde a tempestade açoita mais fortemente
O pinheiro, e as torres elevadas ruem pesadamente
Enquanto os relâmpagos ferem o topo das montanhas”

(Horácio, Carm, II, 10)

amor expresso

A guerra acontece antes de sair de casa. Segue pelas ruas de São Paulo, debaixo de chuva, numa tormenta que se desejava há meses. E foi assim mesmo, com dificuldades no trânsito e roupas molhadas, que ganhamos o privilégio de uma tarde entre amigos, respirando um ar renovado.

Chegando aos poucos, ocupamos nossos lugares. Logo ele veio, Leonardo Rocha, para o exercício de degustação.  Entre copinhos de leite, suco, essências e  chocolates, aprendemos sobre a história do café, a torra dos grãos, a qualidade do plantio, o modo de preparo, o ideal de armazenamento.

Já havíamos exercitado lembranças olfativas e  estímulos do paladar quando prensas francesas trouxeram a estrela da festa: o café.

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É verdade que assustou o barista a ligeireza com que pedíamos por mais um pouco, e mais um pouco, e, que um copo de café foi parar inteiro num dos exemplares da edição especial de Amor Expresso que Lunna Guedes preparou para o evento… Mas apesar disto, ou precisamente por isto, nasceu um clima agradável, a comunhão que Felipe Reis completou com a leitura dos contos.

Compartilhei, emotiva, de todas as reações. Rimos juntos e  também nos compadecemos da sorte de alguns personagens –  achando mesmo que a escritora foi cruel com alguns deles. Mea culpa.

As horas passaram depressa e a chuva aumentou , emprestando seu toque dramático aos sobreviventes deste encontro.  Nos despedimos. Eu me senti preenchida deste momento miúdo,  simples e calmo, onde o diálogo nasceu e fluiu com naturalidade ao redor das mesas.

Só quem se arriscou, sabe.

Uma casa amarela

akira

Pra tanto asfalto
Flores roxas e amarelas
Descobriram a cura 

Paulo D’Auria


Sexta, 18h, fomos ao cinema; espectadores deste mesmo filme, domingo, 15h, chegamos a São Miguel Paulista. Em Poesia sem fim, Alejandro Jodorowsky nos esperava com sua urgência de liberdade: “Qual é o sentido da vida? O cérebro faz perguntas. O coração dá as respostas. A vida não tem sentido. Vive! Vive!”.  Para esta mesma experiência sensorial a porta se abriu no domingo.

À entrada, bem-nos-vindo, o poeta atemporal esperava. Os habitantes mais antigos pouco a pouco nos socorreram à sua companhia. Entre fotografias, livros, esculturas, poetas e músicos afinavam seus instrumentos. Ao achar o tom exato da palavra poética, Akira Yamasaki inaugurou o ritual coletivo de considerar a todos como parte de si mesmo: começa o 57º sarau d’A Casa Amarela.

Voz, violão, percussão… O ritmo é virtuoso. Rompem o silêncio versos em coro e megafone: poetas de rua em palavras e MPB, performances e gestos. A poesia sussurrada, falada, gritada construindo a ponte entre o onírico e a realidade, o apelo à consciência e ao humor – nossa lanterna dos afogados.

Feita de tijolos, grafites e gente que acredita, n’a Casa Amarela nada é dissonante. Todo o esforço pela arte se costura em tecido único: o apetite pela vida. A força criativa, motriz dos participantes, faz nascer poesia na hora; transforma  poema em música, e, entre uma conversa e outra, constrói amigos de verdade.

Saímos antes de findar a festa, e por isso, com o coração partido. Da rua, vimos a luz e o canto aquecerem a casa onde a magia acontece: ali todo dia é domingo, mas no nosso táxi, já era segunda-feira.


 

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A Casa Amarela – Espaço Cultural, localizada em São Miguel Paulista (SP), iniciou suas atividades em Março de 2011 e foi pensada para, em todos seus ambientes, respirar a criação humana e seus desdobramentos onde música, teatro, literatura, cinema, artes visuais, filosofia, história ou simplesmente a conversa entre seus visitantes possa ser aconchegante e convidativa para novas descobertas.