Verbo Proibido

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“Fugir –
… fingir

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Este é um livro de cores suaves, amarrado com fita… O nome da autora vem delicadamente desenhado na capa, como era de se esperar do livro de poemas dos filhos… da Adriana; a vida em cetim azul… a delicadeza… Opa, espere! Melhor me demorar um pouco mais na capa: as letras em mosaico sugerem o tecido proibido. O Verbo e o aviso.

Ultrapasso; por minha conta e risco.

‘Verbo: proibido’, de Adriana Elisa, tem a aparência e o sabor do sonho que maturou ao seu tempo, por madrugadas e dias, adiado até a palavra arrumar as malas e partir em busca da identidade própria.

… que a felicidade
também foi feita para mim

Na fingida fuga pela independência, acompanho a transformação do cisne em patinho feio e seu esforço para se tornar este condor de garras afiadas e asas recém-criadas, pronto para o primeiro voo.

Estranha e incapaz de identificar os riscos, a persona se atira. E é entre amores e desamores, que alterna a lírica eufórica com travos amargos da frustração.
Descobrimos juntas, que quanto mais alto o grito, mais o verbo assusta. Adrianas pela madrugada: rastro colorido de poetas, comburidas na própria consciência.

… longe de caixas
compradas em farmácias”

Ela escreve porque a dor não se rompe com o corte do cordão umbilical. Nascidas para imergir neste mundo, sabemos que a poesia é oxigênio para mergulhos mais profundos. Ela se arrisca. Eu me arrisco ao lê-la, em queda livre, amparadas pela viscosa curiosidade do que ainda está por vir.

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Não dá pra voltar atrás.

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Adriana, a mãe.

 


~    Lançamento    ~
 07 | 07 | 18 — às 15h00

Soneto Café
Rua Dr. Camilo Hermelindo da Silva, 850
Jardim Caramuru, Dourados

MS

Para adquirir seu exemplar: https://scenariumplural.wordpress.com/compre-on-line/


 

Sobre ‘a construção da primavera’

Por Thiago Prada

a construção da primavera

“Há um tigre solto dentro de casa. São vários os cômodos em que ele se esconde. Não se podem domesticar os tigres, principalmente o branco. Sinuoso, feroz e imprevisível, ataca quando menos se espera. O medo é meu tigre branco.  Tigres brancos não são encontrados na natureza”

Um diário de alma para registrar as estações de cada tempo, do lado de dentro e de fora, palavras para capturar o tigre branco — um dia olhar para os olhos de iceberg do tigre branco e não se congelar.
Primeiro, o inverno: sobrevivência pura, na crueza do branco, gelo que se parte e nos leva pra longe de todo calor.
Depois, a primavera: a esperança que brota nos gestos do cotidiano, compartilhar a alegria de um sorriso, o tigre se acalma.
Então, o verão: estamos a salvo (eu e a escritora), somos banhados pelo calor e o tigre adormece, quase esquecido pelos pequenos cantos escuros da casa.
Por fim, o outono: o animal desperta, as sombras começam crescer, é preciso a nova luta, novas palavras, mas ah, as palavras são frágeis.
Adriana Aneli registra suas estações, os gestos, os acontecimentos e transformações, mas não se trata de um simples diário, mas uma composição de vida, poemas para sentir e refletir sobre cada passagem de nossas vidas.
Este seu poema acima, entra para a minha de favoritos de todos os tempos.

Saudações à poeta e suas palavras!

As Canções de Bilitis, de Pierre Louÿs

canções
Aos 14 anos de idade tive o privilégio de conhecer um grande poeta.  Tejo Damasceno. Dele, pouco ou quase nada foi publicado. Mas seus poemas delicados e precisos, cotidianos e universais são inesquecíveis para quem teve a sorte de tê-los nas mãos algum dia.

Nossa amizade nasceu e cresceu entre cartas longas e perfumadas, datilografadas em papel bíblia. Cartas que chegavam de Porto Alegre em envelopes elegantes. Trazendo: poemas, novidades, histórias, reflexões e para a delícia máxima de uma adolescente, a tradução que o poeta fazia do livro: ‘As Canções de Bilitis’, do poeta francês Pierre Louÿs, publicado pela editora Paraula em 1994.

Este diálogo, nunca esquecido, perdeu-se por entre caminhos que optamos por não seguir e que, felizmente, retomamos agora, 20 anos depois!

Tenho um exemplar das Canções… é daqueles livros pelos quais a gente se apaixona, namora, pede em casamento. Eu, por minha vez, comprei uma escrivaninha com estante, restaurei, apenas para colocar meu exemplar no lugar especial que ele deve ocupar.

Um pouco sobre o autor e sua brincadeira literária:

Pierre Louÿs era um estudioso da antiguidade grega. Esteta e maníaco literário, dedicou-se a traduzir textos antigos. Em Paris, 1894, anunciou a descoberta arqueológica do túmulo e poemas gregos de Bilitis, que ele então traduziu. O sucesso entre os helenistas foi estrondoso, e Pierre preferiu guardar até às vésperas de sua morte, em 1925, o segredo de que a história da personagem e suas canções eram, na verdade, de sua lavra.


 

Seguem alguns cantos, para que possam dividir comigo o sabor desse livro:

A CHUVA

A chuva fina molhou todas as coisas, devagarinho, e
em silêncio. Chove ainda um pouco. Vou passear sob
as árvores. Com os pés descalços, para não manchar meus
sapatos.

A chuva na primavera é deliciosa. Os galhos carregados
de flores molhadas têm um perfume que me atordoa. Vê-
se brilhando ao sol a pele delicada das cascas.

Ai! Quantas flores sobre a terra! Tende piedade das flores
caídas. Não se deve varrê-las e misturá-las à lama; mas
conservá-las para as abelhas.

Os escaravelhos e as lesmas atravessam o caminho entre
as poças d´água; não quero pisar neles, sem assustar o
lagarto dourado que pisca e se estira.


 

BILITIS

Uma mulher se envolve em lã branca. Outra se veste de
seda e ouro. Outra se cobre de flores, folhas verdes e uvas.

Quanto a mim, não saberia viver senão nua. Meu amante,
toma-me como eu sou: sem vestes, nem jóias, nem
sandálias, eis Bilitis sozinha.

Meus cabelos são negros de seu negror e meus lábios
vermelhos de seu vermelho. Meus cachos flutuam ao redor
de mim, redondos e livres como plumas.

Toma-se tal qual minha mãe me fez, numa noite de
amor longínqua, e se assim te agrado, não esquece de me
dizer.


 

A CARTA PERDIDA

Ai de mim! perdi sua carta. Eu a guardava entre a pele
e a túnica, sob o calor do meu seio. Corri ela terá caído.

Vou retornar os meus passos: se alguém a en-
contrasse, contaria à minha mãe e eu seria fustigada diante
das minhas irmãs zombeteiras.

Se é um homem que a encontrou, ele a devolverá; ou
até, se quiser falar comigo escondido, conheço o meio de tirá-la.

Se uma mulher que a leu, oh Zeus Guardião, protege-me!
Pois ela contará a todo mundo,
ou roubará meu amante.


 

CANÇÃO

A noite é tão profunda que penetra em meus olhos. –
Não enxergarás o caminho. Te perderás na floresta.

– O ruído das quedas d’água enche meus ouvidos. –
Não escutarias a voz do teu amante, estivesse ele a vinte
passos daqui.

– O cheiro das flores é tão forte que desfaleço e vou
cair. – Se ele cruzasse o meu caminho, não o perceberias.

– Ah! Ele está bem longe daqui, do outro lado da
montanha; mas eu o vejo e escuto e o percebo como se
me tocasse.

 


Tradução, prefácio e glossário por Tejo Damasceno. As ilustrações são de Balluriau.