O crepúsculo dos deuses

Um texto de minha autoria no blogue da Scenarium. Esse texto fez parte da edição Crepúsculo da Plural, lançada em novembro de 2015.

2017-09-30 16.43.13-3Por Adriana Aneli – autora dos livros amor expresso,
a construção da primavera e o sol da tarde

Trabalha naquilo antigo enquanto o mundo se move
Para o centro de sim mesmo, como se todos os pontos em que trabalhas fossem o centro do mundo.
— Herberto Helder —

Eu compunha poemas em um caderno.
Ali, fechadinha no meu quarto. Eu tinha 14 anos e lançava meu primeiro livro, Jogo da Vida. O ano era 1990 e tudo o que sei é que, de repente, eu me vi enfrentando o pânico atávico da minha timidez, nos corredores da Bienal Internacional do Livro.
As coisas não acontecem por acaso ou os livros têm o seu destino… aprendi na carne. A sorte é caprichosa e só faz o que quer. Entre convites, reportagens, recitais, livros, feiras de literatura e programas de rádio foi proferida a sentença: menina prodígio —  condenação transitada em julgado; como…

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Tesselas Contemporâneas

Um encontro com as mulheres de nosso tempo.

Noite de sábado. Uma casa laranja de frente para uma avenida em movimento… como todos nós, a pulsar emoções. Um Sarau denominado Mosaicum em que as tesselas são figuras humanas em busca de um elemento dissonante: a Arte…
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Tesselas contemporâneas é um novo espaço para que figuras femininas… brancas-negras, de todas as cores-aromas-idiomas… do centro ou da periferia, de outros cantos-cidades-países. Queremos reuni-las para dividir num diálogo… as suas experiências-vivências a partir do exercício da palavra.
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Para o primeiro encontro, realizado em junho desse ano, convidamos: Maria Vitória: figura plural, mulher-negra, da periferia, estudante que sabe pontuar tudo o que sente na pele… e Aline Bei: figura-una, mulher-branca, de todos os cantos, que pontua a sua escrita sem gênero na própria pele, convertida em papel.
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Foi uma noite deliciosa, de perguntas e respostas… de respirar encurtado, lágrimas no canto dos olhos e a voz, por vezes, embargada…

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Adriana Aneli

Scenarium livros artesanais

“não podia ser diferente a vida – tenho alma de ópera italiana atormentada pelo enredo – canta a ária personagem atônita”.
Adriana Aneli

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adriana aneli

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Nascida e vivida em São Paulo desde 1976. Aos 13 anos acreditou que a literatura era mesmo um bom negócio: leu muito, escreveu pouco. Depois de lançar livros, fazer recitais e ganhar um programa de rádio para chamar de seu, achou que estava errada e foi fazer Direito.
Sobrecarregada com experiências nada técnicas, desistiu… de não acreditar em si mesma e voltou ao Scenarium.
Intuitiva e apaixonada gosta do céu, mas sempre mergulha na terra, onde inaugura ciclos com a mesma facilidade com que os encerra.

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amor expresso, adriana aneli.

Quando vem a vontade de escrever?

Toda vez que me sinto em desordem. Escrevo para colocar os pensamentos no lugar, autoprocessamento, feng shui: tento passar a alma a limpo.

Ser “público” e engajadora de acontecimentos te faz perder…

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São Paulo, 30 de setembro

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Querida v.,

 

Desabafo. Você não lerá esta carta. Eu me esqueci, esqueço com frequência, da volatilidade do tempo. A vida, nua, anda ligeira; não dá segunda chance.

Queria dizer que está tudo bem por aqui, que não se preocupe, que a gente dá um jeito nisso tudo. Aprendi com você sobre essa coisa de enfrentar a incerteza: sobre o tempo da plantação e sobre o descanso da terra; sobre a erva daninha e sobre a proveitosa colheita. Eu sei, o dia seguinte chega… Esperança nova para pensamentos cansados.

Você não lerá nada disso, porque entre os compromissos de ontem, de hoje e dos que eu sabia que teria amanhã, entre a festa e a preguiça, entre a vigília e o sono, esqueci de dizer que te amo.

Você não lerá sobre o quanto sofri antecipadamente a sua perda.  E sobre o vazio do dia em que ela finalmente chegou. Eu não te disse nada. Também não escrevi, não liguei, e nem fui aí dizer pessoalmente depois de um abraço forte.

É por isso que você não saberá desta dor que sinto. Ainda bem. Você não gostava nada-nada de  ver alguém sofrer.

Ainda assim, a saudade permanecerá aqui por muito tempo, marcada com ferro em brasa no coração em branco.

 

Adriana Aneli

 


Projeto Scenarium 6 missivas | Setembro -18
Participam: Lunna Guedes Maria Vitória | Mariana Gouveia | Obdulio Nunes Ortega

 

Plural Crepúsculo |O crepúsculo dos deuses

Plural Crepúsculo, 2015

Trabalha naquilo antigo enquanto o mundo se move.
Para o centro de sim mesmo, como se todos os pontos
em que trabalhas fossem o centro do mundo.
— Herberto Helder —

 

Eu compunha poemas em um caderno. Ali, fechadinha no meu quarto. Eu tinha 14 anos e lançava meu primeiro livro, Jogo da Vida. O ano era 1990 e tudo o que sei é que, de repente, eu me vi enfrentando o pânico atávico da minha timidez, nos corredores da Bienal Internacional do Livro.

As coisas não acontecem por acaso ou os livros têm o seu destino… aprendi na carne. A sorte é caprichosa e só faz o que quer. Entre convites, reportagens, recitais, livros, feiras de literatura e programas de rádio foi proferida a sentença: menina prodígio — condenação transitada em julgado; como viver a própria vida?

O pianista Itzhak Perlman se referindo a jovens prodígios da música observa que, ao ouvir uma criança de 10, 8, 2 anos tocando lindamente, logo pensa: quero ver o que ela estará tocando aos 20.

Prodígios arrastam vida afora seus grilhões. Cada passo é marcado pela tornozeleira eletrônica da vaidade; vinte e quatro horas por dia, escoltados pelo grilo falante da autocrítica, jovens prodígios vivem tentando provar a si mesmos que o sentenciante não estava equivocado.

Chega-se aos 20 e então, tornou-se outro Mozart? Ou, aos 20, abandonou aulas e instrumento, já não quer mais saber de música? Para o escritor, parar de escrever era o grande risco? Ou deixar de ler, não publicar, não evoluir em seu estilo?

O que descobri chegando aos quarenta é que nunca fui prodígio: não deixei de escrever, de ler…. publicar, talvez menos. Ou então, descobri a tempo a saída da cela, aquilo que, na verdade, esqueceram de me contar: o que acontece com os jovens escritores prodígio? Eles envelhecem; ainda bem.

 


Publicação da Plural Crepúsculo Scenarium, em novembro de 2015

Plural Red | Road Movie

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Muito contrariada, aceitou o compromisso. Caía uma chuva miúda. Pediu a última poltrona, janela. Enfiou o rosto na cortina de veludo. Com todos os problemas moendo engrenagem, não queria conversar. Quando o motor ligou, sentiu o incômodo. Pensou na tortura das próximas horas. Aquela trepidação. Tentou achar outra poltrona vaga. Nada, o ônibus estava lotado. Fechou os olhos e passou a ruminar a estrada, seu tanto de cansaço e náusea.
O fim da chuva amornou a viagem. Acomodou-se para um cochilo… Quando se deu conta, a sensação já a tocava em pequenas ondas, uma tensão mínima, uma vontade intensa. Com um certo constrangimento, sentiu a umidade que a nublava. Pagou pra ver, abandonando-se, um pouco mais, naquele sacolejo.
A transformação reivindicou o corpo… Necessidade de expansão, de acomodação, manso e manso, um quase desespero que lhe aquecia as coxas, avermelhava as bochechas. Viu a si mesma, ansiosa, tomada, ingurgitada, intensa, uva madura, gosto de saliva a vinho, sangue na veia, o corpo cada vez mais inclinado intenso, intenso.
O orgasmo feminino consiste em contrações reflexas ritmadas dos músculos perivaginais e perineais que circundam a vagina, a intervalos de 0,8 segundos… leu na Marie Claire, eu acho… Deixava para trás a única vida que conhecia.

 


Publicação da Plural Red Scenarium, em agosto de 2015