Plural Crepúsculo |O crepúsculo dos deuses

Plural Crepúsculo, 2015

Trabalha naquilo antigo enquanto o mundo se move.
Para o centro de sim mesmo, como se todos os pontos
em que trabalhas fossem o centro do mundo.
— Herberto Helder —

 

Eu compunha poemas em um caderno. Ali, fechadinha no meu quarto. Eu tinha 14 anos e lançava meu primeiro livro, Jogo da Vida. O ano era 1990 e tudo o que sei é que, de repente, eu me vi enfrentando o pânico atávico da minha timidez, nos corredores da Bienal Internacional do Livro.

As coisas não acontecem por acaso ou os livros têm o seu destino… aprendi na carne. A sorte é caprichosa e só faz o que quer. Entre convites, reportagens, recitais, livros, feiras de literatura e programas de rádio foi proferida a sentença: menina prodígio — condenação transitada em julgado; como viver a própria vida?

O pianista Itzhak Perlman se referindo a jovens prodígios da música observa que, ao ouvir uma criança de 10, 8, 2 anos tocando lindamente, logo pensa: quero ver o que ela estará tocando aos 20.

Prodígios arrastam vida afora seus grilhões. Cada passo é marcado pela tornozeleira eletrônica da vaidade; vinte e quatro horas por dia, escoltados pelo grilo falante da autocrítica, jovens prodígios vivem tentando provar a si mesmos que o sentenciante não estava equivocado.

Chega-se aos 20 e então, tornou-se outro Mozart? Ou, aos 20, abandonou aulas e instrumento, já não quer mais saber de música? Para o escritor, parar de escrever era o grande risco? Ou deixar de ler, não publicar, não evoluir em seu estilo?

O que descobri chegando aos quarenta é que nunca fui prodígio: não deixei de escrever, de ler…. publicar, talvez menos. Ou então, descobri a tempo a saída da cela, aquilo que, na verdade, esqueceram de me contar: o que acontece com os jovens escritores prodígio? Eles envelhecem; ainda bem.

 


Publicação da Plural Crepúsculo Scenarium, em novembro de 2015

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