O Sol da Tarde

(Konstantinos Kavafis)

 

o sol da tarde 2

 

Este quarto, como o conheço bem.
Agora alugam-se quer este quer o do lado
para escritórios comerciais. A casa toda tornou-se
escritórios de intermediários, e de comerciantes, e Sociedades.

Ah este quarto, não é nada estranho.

Perto da porta por aqui estava o sofá,
e diante dele um tapete turco;
ao pé a prateleira com duas jarras amarelas.
À direita; não, em frente, um armário com espelho.
Ao meio a sua mesa de escrever;
e três grandes cadeiras de vime.
Ao lado da janela estava a cama
onde nos amámos tantas vezes.

Estarão ainda os coitados nalgum lugar.

Ao lado da janela estava a cama;
o sol da tarde chegava-lhe até metade.

… De tarde quatro horas, tínhamo-nos separado
por uma semana só… Ai de mim,
aquela semana durou para sempre.

Um livro que dói,

o sol da tarde
Imagem daqui

“… Gracias doy a la desgracia/Y a la mano con puñal,
Porque me mató tan mal,
Y seguí cantando”

Maria Elena Walsh


 

Há o fato e o labirinto de becos que o encerra. Há o tempo em que calar é reunir palavras, novelo a desenrolar por entre perdas e dores aprisionadas.

Para derrotar o mito é preciso se concentrar em si mesmo. Submergir para chegar ao centro das incertezas… Ali e a sós, ferir e ser ferido.

O sol da tarde é este exercício de estranhamento: poemas — um emaranhado de medo e de morte em fio dourado, a levar às entranhas do apodrecimento e daí novamente à luz…  o abandono de Ariadne.

Neste tempo de adormecimento, a coragem está em romper a superfície calma dos dias, abandonar a casca para gritar, em roupas novas, sobre um passado que ainda sufoca.

 

O sol da tarde (Ed. Scenarium, 2017)

poemas em português
versão em espanhol por Mariela Bello

Meus livros artesanais…

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Mãos que fazem

O artesão é o indivíduo que pratica arte ou ofício; artífice que exerce sua profissão em oficina própria – seu templo. O artesão é aquele que realiza… Custe o que custar.

Ao artesão não cabem críticas: o artesanato é tecido dos sonhos, de identidade e cultura que reage quando todo o restante parece caminhar para o óbvio.

O artesanato nasce de mãos calejadas, de mãos teimosas, de mãos que conhecem seus afazeres na palma das mãos e de olhos vendados.

Artesanal tem falhas, porque tem alma; sua beleza está justamente nas imperfeições não pré-fabricadas.

De telhas feitas nas coxas às micro esculturas nascidas na ponta de um palito de dentes, o artesanato compõe e se recompõe num caminho místico e inspirado.

Em tempos de made in, sobrevive: exclusivo e único.

Gratíssima, Lunna Guedes, pela obra de arte que faz surgir de suas mãos!

Adriana Aneli

O sol que fraqueja

cigarraescorrego
viscosa fruta
decompõe
daqui vejo asas em formação
remota palavra
presa nos dentes.

 


 

O sol da tarde, de Adriana Aneli, é um livro que escapa, com movimentos lentos, mas densos (tensos), das diversas tendências da poesia contemporânea brasileira. Tem, a provar sua singularidade, uma atmosfera imersa em silêncio, em gestos que ora provam o imenso desafio do amor, ora provam que ele está à prova.

O corpo da protagonista (que só protagoniza em si mesma aquilo que para o compartilhamento sempre terá muito de segredo) vive a sensorialidade plena de um desejo imerso na hesitação.

Inquieta, no entanto paralisa seus gestos para assim dar-se na hora que é chegada. Essa hora parece não vir nunca. A réstia de sol, fresta de luz que não se distancia de um frio metafórico e nem por isso menos real, anuncia que as possibilidades ainda não se acabaram. Mas trata-se de um querer onde há medo e nesse medo há mais querer. Cada poema parece seguir ao outro, e assim tal lírica revela-se no conjunto completo do livro, e não só poema a poema. Embora, claro, cada poema é um artefato em si, escrito num ritmo sussurrado – e atônito.

Sintética, elíptica, a poeta mostra-se numa sintaxe capaz de chegar ao estranhamento, esse efeito capaz de causar no leitor uma espécie de grave encantamento. Grave no sentido de profundo, porque quase verso a verso temos uma cena que sobretudo aqui nega-se a qualquer evidência.

O leitor que a busque no poema. Embora ainda seja cedo, eu ousaria afirmar sobre seus versos expressões como “singular”, “inusitados”, “dicção imprevisível”, “sintaxe entre um intimismo inconfessável e um desmoronamento do discurso” e “poema em fuga”.

O livro conta uma história, e é dividido em duas partes, cada uma associada à sua epígrafe. Num dos poemas (“mas quando vem”), a esquecida e enlouquecida Camille Claudel é personagem que poderia assumir o discurso poético, amoroso. O desfecho traz à tona um desespero inconsciente, rindo mesmo frente à iminência do risco.

Alquimia entre a transpiração (o suor emocional) e o gozo, numa dicção que jamais a torna explícita, o projeto é extremamente ousado e de uma delicadeza única.

borbolea

Paulo Bentancur…. em dezembro de 2014.

 

O SOL DA TARDE, poemas de Adriana Aneli

Editora: Scenarium... 2017

Sobre ‘a construção da primavera’

Por Thiago Prada

a construção da primavera

“Há um tigre solto dentro de casa. São vários os cômodos em que ele se esconde. Não se podem domesticar os tigres, principalmente o branco. Sinuoso, feroz e imprevisível, ataca quando menos se espera. O medo é meu tigre branco.  Tigres brancos não são encontrados na natureza”

Um diário de alma para registrar as estações de cada tempo, do lado de dentro e de fora, palavras para capturar o tigre branco — um dia olhar para os olhos de iceberg do tigre branco e não se congelar.
Primeiro, o inverno: sobrevivência pura, na crueza do branco, gelo que se parte e nos leva pra longe de todo calor.
Depois, a primavera: a esperança que brota nos gestos do cotidiano, compartilhar a alegria de um sorriso, o tigre se acalma.
Então, o verão: estamos a salvo (eu e a escritora), somos banhados pelo calor e o tigre adormece, quase esquecido pelos pequenos cantos escuros da casa.
Por fim, o outono: o animal desperta, as sombras começam crescer, é preciso a nova luta, novas palavras, mas ah, as palavras são frágeis.
Adriana Aneli registra suas estações, os gestos, os acontecimentos e transformações, mas não se trata de um simples diário, mas uma composição de vida, poemas para sentir e refletir sobre cada passagem de nossas vidas.
Este seu poema acima, entra para a minha de favoritos de todos os tempos.

Saudações à poeta e suas palavras!

Ao pensar poesia, altero a percepção do mundo…

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“As pessoas andam muito ocupadas com a realidade”, ela me diz, enquanto lamento (mais esta vez) a falta de tempo para me dedicar aos “grandes projetos” – que ainda estão na cabeça e nem chegaram à fase da gaveta.

(Ela lida bem com o tempo. Eu continuo tentando).

Passo os dias a me equilibrar na navalha, entre um desgaste emocional e outro atendimento de telemarketing, notícias nauseantes do país, a existência espremida entre as horas… Como uma profissão.

Se a realidade é tão ruim, escrever é uma forma de transformá-la? Cabe nesta ideia esperança, que nasce no exato instante em que rabisco esta crônica desajeitada: com as palavras, ainda tenho meu melhor diálogo.

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Ao pensar poesia, altero a percepção do mundo: crio fatos a serem admirados, pessoas em  gestos inteiros – para além de juízos e condenações, exigências ou erros…

Tempo…  E silêncio: a preciosa sombra que se lança sobre o óbvio para devolver-lhe o mistério. Recolher-se ao recôndito de um mundo pequeno e particular é sentir a brisa fresca que escapa pela porta da varanda com cheio de flor recém-nascida. E nos envolve.

Ao nos fazermos assim tão sensíveis, derramamos nosso olhar gentil sobre todas as coisas, para que o bom e o belo se multiplique.

Furto alguns minutos da minha correria para deixar meu pensamento falar comigo. Ele coloca as mãos sobre os meus ombros e me diz que vai ficar tudo bem.

Isso me acalma.

A capa do meu diário… rasgou-se

 

garraGarra sulcada no dia que nasce.


 

a construção da primavera
Adriana Aneli (eu), Lunna Guedes e Mariana Gouveia, lançaram também seus diários: A construção da primavera,  Septum e Cadeados Abertos — parte do Projeto Diário das quatro estações (Ed. Scenarium), impressões recolhidas por quatro escritoras no decorrer de um ano.