Durante o café eu me ‘expresso’…

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A história começa com um quase desencontro. Chego no horário. E enquanto espero, pesco um pedaço de papel no fundo da bolsa. Nele, rabisco algumas ideias… e mais outras, porque ela se atrasa, e se atrasa tanto, que, ao chegar, já encontra elencadas 50 hipóteses de café, em minicontos.
Foi assim em 2015, com os olhos pregados durante 40 minutos na cauda dupla da sereia, que nasceu Amor expresso. Este Amor, que jamais poderia ser entregue a outra pessoa, senão à artesã Lunna Guedes, e sua oficina de sonhos.
Escrever é colocar óculos novos para enxergar a realidade que já estava ali, mas agora — despertos — fizemos ganhar tons e contornos. Abrir-se a qualquer forma de arte é tornar-se apto a aprender, apreender, compreender a matéria que compõe os cenários, os atos e os desejos.
Amor expresso não é um livro… é um projeto de arte, sensitivity in progress. Aos meus pequenos contos, somam-se janelas, ressignificâncias, pontes para filmes, pinturas, poesias, esculturas, harmonizações, representações.
Amanhã, escreveremos mais um capítulo deste Projeto… com o seminário sobre a história do café no Brasil e no mundo com o barista Leonardo Rocha. A leitura de Felipe Reis dará sabor aos contos do livro. E eu estarei lá, degustando deste diálogo com entusiasmo. Porque as melhores histórias são as que criamos juntos, por trás da fumacinha que escapa da xícara de café…

 


 

‘amor expresso’
Quando?
30/09
Horário? 16h00
Onde? Starbucks Brasil — Alameda Santos, 1054
{próximo a Avenida Paulista}
Link do evento no facebook…


 

Sobre lagartas e borboletas

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Transformação é a palavra de ordem. Mudanças socioeconômicas, evolução tecnológica, formas originais de compreender o mundo – e a velocidade com que tudo acontece – levam a Arte a novo diálogo. Nada existe de forma isolada: pintura, escultura, literatura, dança, música subsistem de forma múltipla e integrada.

Com este pensamento nasceu o “Projeto do Ovo ao Voo”, que reúne poetas de várias gerações, estilos e países, com o objetivo de construir visões múltiplas sobre o tema desafio e superação, medo e coragem, desejo e satisfação, resistência e libertação.

O resultado pode ser visto na antologia SOBRE LAGARTAS E BORBOLETAS (Ed. Scenarium, 2015) onde repentistas, prosadores, rappers, poetas acadêmicos ou de rua convivem lado a lado, formando tecido único.

A liberdade lírica dá o tom à obra e ao exercício poético, que ganha asas com as ilustrações de Cristina Arruda, artista plástica e também autora no livro.

O espaço para a ação social contou com a participação voluntária de todos os autores e artistas envolvidos no projeto e a renda obtida com a venda dos livros é totalmente revertida para o projeto social MANO DOWN, entidade sem fins lucrativos que promove, através da visibilidade, a igualdade social para que pessoas com down e outras deficiências tenham liberdade para dirigir a própria vida.

Em 2015 o projeto ganhou Exposições no Centro Cultural Abrigo de Bondes, em Niterói/RJ e Espaço Cultural Zumblick-TCE, em Florianopolis-SC pelas mãos da artista plástica Flávia Taiano. Para a mostra, a pintora e escultora preparou meninas-borboleta inspiradas no universo das crisálidas, asas e metamorfose do livro.

No Centro Histórico de Salvador, a artista comanda as produções de seu atelier, em funcionamento no Hotel Solar do Carmo, por ela transformado em Hotel Galeria, onde seus quadros e obras estão em exposição permanente. Autodidata, sua obra “O Jardim das Tulipas” integra o Acervo Permanente do Museu de Arte Contemporânea da Bahia.

Os autores do livro: Adri Aleixo, Adriana Aneli, Adriana Elisa Bozzetto, Adriane Garcia, Afobório Feito de Carniça, Alberto Bresciani, Albino Alves, Alessandro Dornelos, Alexandre Guarnieri, Ana Elisa Ribeiro, Anahí Celeste Cao, Bianca Velloso, Caetano Lagrasta, Carlos Magno, Carlos Moreira, Carlos Ventura, Carminha Mosmann, Cely de Ceci, Chris Herrmann, Clauco Oliveira, Claudinei Vieira, Claudio Castoriadis, Cris Arruda, Diovani Mendonça (diÔ), Edmilson Felipe, Félix Coronel, Fran Nóbrega, Gabriel Resende Santos, Germana Zanettini, Germano Quaresma, Inês Monguilhott, Iracema Machado, Janet Zimmermann, Jô Diniz, Jorge Nagao, José Couto, José Reginaldo, Lázara Papandrea, Leila Silveira, Líria Porto, Lou Albergaria, Lourença Lou, Luciana do Rocio Mallon, Luciane Lopes, Luís Augusto Cassas, Luiz Gondim, Mag Faria, Maite Voces Calvo, Maria Balé, Mariana Queiroz, Marília Lima, Marina Bozzetto, Marcelo Adifa, Marcelo Moro, Marcos Magoli, Marcus Fabiano, Nil Kremer, Norma de Souza Lopes, Paulo Bentancur, Paulo de Toledo, Paulo Guilherme, Paulo Magalhães, Paulo Paterniani, Rogério Miranzelo, Seh M. Pereira, Sonia Salim, Suzana Pires, Tania Amares, Tejo Damasceno, Tere Tavares, Thiago Prada, Vera Molina, Wander Porto, Winston Morales Chavarro e Zeca Jardim.

As Canções de Bilitis, de Pierre Louÿs

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Aos 14 anos de idade tive o privilégio de conhecer um grande poeta.  Tejo Damasceno. Dele, pouco ou quase nada foi publicado. Mas seus poemas delicados e precisos, cotidianos e universais são inesquecíveis para quem teve a sorte de tê-los nas mãos algum dia.

Nossa amizade nasceu e cresceu entre cartas longas e perfumadas, datilografadas em papel bíblia. Cartas que chegavam de Porto Alegre em envelopes elegantes. Trazendo: poemas, novidades, histórias, reflexões e para a delícia máxima de uma adolescente, a tradução que o poeta fazia do livro: ‘As Canções de Bilitis’, do poeta francês Pierre Louÿs, publicado pela editora Paraula em 1994.

Este diálogo, nunca esquecido, perdeu-se por entre caminhos que optamos por não seguir e que, felizmente, retomamos agora, 20 anos depois!

Tenho um exemplar das Canções… é daqueles livros pelos quais a gente se apaixona, namora, pede em casamento. Eu, por minha vez, comprei uma escrivaninha com estante, restaurei, apenas para colocar meu exemplar no lugar especial que ele deve ocupar.

Um pouco sobre o autor e sua brincadeira literária:

Pierre Louÿs era um estudioso da antiguidade grega. Esteta e maníaco literário, dedicou-se a traduzir textos antigos. Em Paris, 1894, anunciou a descoberta arqueológica do túmulo e poemas gregos de Bilitis, que ele então traduziu. O sucesso entre os helenistas foi estrondoso, e Pierre preferiu guardar até às vésperas de sua morte, em 1925, o segredo de que a história da personagem e suas canções eram, na verdade, de sua lavra.


 

Seguem alguns cantos, para que possam dividir comigo o sabor desse livro:

A CHUVA

A chuva fina molhou todas as coisas, devagarinho, e
em silêncio. Chove ainda um pouco. Vou passear sob
as árvores. Com os pés descalços, para não manchar meus
sapatos.

A chuva na primavera é deliciosa. Os galhos carregados
de flores molhadas têm um perfume que me atordoa. Vê-
se brilhando ao sol a pele delicada das cascas.

Ai! Quantas flores sobre a terra! Tende piedade das flores
caídas. Não se deve varrê-las e misturá-las à lama; mas
conservá-las para as abelhas.

Os escaravelhos e as lesmas atravessam o caminho entre
as poças d´água; não quero pisar neles, sem assustar o
lagarto dourado que pisca e se estira.


 

BILITIS

Uma mulher se envolve em lã branca. Outra se veste de
seda e ouro. Outra se cobre de flores, folhas verdes e uvas.

Quanto a mim, não saberia viver senão nua. Meu amante,
toma-me como eu sou: sem vestes, nem jóias, nem
sandálias, eis Bilitis sozinha.

Meus cabelos são negros de seu negror e meus lábios
vermelhos de seu vermelho. Meus cachos flutuam ao redor
de mim, redondos e livres como plumas.

Toma-se tal qual minha mãe me fez, numa noite de
amor longínqua, e se assim te agrado, não esquece de me
dizer.


 

A CARTA PERDIDA

Ai de mim! perdi sua carta. Eu a guardava entre a pele
e a túnica, sob o calor do meu seio. Corri ela terá caído.

Vou retornar os meus passos: se alguém a en-
contrasse, contaria à minha mãe e eu seria fustigada diante
das minhas irmãs zombeteiras.

Se é um homem que a encontrou, ele a devolverá; ou
até, se quiser falar comigo escondido, conheço o meio de tirá-la.

Se uma mulher que a leu, oh Zeus Guardião, protege-me!
Pois ela contará a todo mundo,
ou roubará meu amante.


 

CANÇÃO

A noite é tão profunda que penetra em meus olhos. –
Não enxergarás o caminho. Te perderás na floresta.

– O ruído das quedas d’água enche meus ouvidos. –
Não escutarias a voz do teu amante, estivesse ele a vinte
passos daqui.

– O cheiro das flores é tão forte que desfaleço e vou
cair. – Se ele cruzasse o meu caminho, não o perceberias.

– Ah! Ele está bem longe daqui, do outro lado da
montanha; mas eu o vejo e escuto e o percebo como se
me tocasse.

 


Tradução, prefácio e glossário por Tejo Damasceno. As ilustrações são de Balluriau.

As horas estão escritas num futuro impossível

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… borboleta pousa nos pés descalços
sente a doçura do rio
futuro
que escapou por entre frestas da sua jaula.


 

Querida L.,

 

“A imaginar um livro-insano-rebelde, com toda a ‘liberdade’ que me permito”….

Sua carta percorreu, durante toda a semana, o labirinto encantado das minhas ideias. Diversas vezes sentei à frente do papel e esbocei uma resposta, mas suas palavras me calaram; “insano” … “rebelde” … E sem disciplinar minhas mãos, impulsos e fibras direcionaram minha vontade: aceitei mais este desafio.

Porque havíamos combinado que 2017 não seria um ano para meus livros.

Mas ele estava lá. Insano e rebelde, meu exercício pessoal de liberdade, nascido e criado… intensificado… A contar de 2006…

Um livro ainda não publicado é um trabalho contínuo, esperançado.

…Este grito que ecoa por muito tempo dentro da noite escura, desde a janela em que nos debruçamos para entender o mundo até o horizonte miúdo em que os poemas ganham suas próprias asas. E caem… ou aprendem a voar.

Reconhecer o tempo: o nosso, e também o dos outros. E compreender que uma vida inteira é composta por muitas esperas…”

Quais caminhos este livro percorreu até chegar às suas mãos? Traz a alma rasgada, pés descalços, o corpo forjado em ilusões puídas…

Finalmente se entrega à tecelã de sonhos. Sob suas ideias, cinderela ganha brilho e coragem, uma carruagem mágica… A impressão de descobrir-se incrivelmente única sob anos de pó cinzento.

O Sol. A tarde…. Não posso sonhar novembro melhor do que este. É o mês do seu aniversário… As horas estão escritas em um futuro impossível… Mas agora sei que ele chegará.

Existe uma mesa com papéis, livros e uma lareira apagada

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Querida L,

 

Sim, o inverno se foi. Ontem a luz alaranjada coloriu minha estante de livros e percorreu com ar de enfado as capas de cd.

Há um pressentimento de primavera que este ano me aflige: tudo tem pressa e mudanças ligeiras sobrecarregam minha percepção. É como se, ao acordar, não tivéssemos tempo para refletir sobre nossos sonhos, pelo fato de que já é hora de dormir de novo. A vida, nesta dinâmica sonâmbula, adia desejos e ponderações.

Podemos parar?

“Sempre há para onde fugir”… e me apego à sua verdade. Recolho em mim meios de injetar ânimo às fibras. Estou cansada. Estamos. Exauridos nesta engrenagem que nos consome por completo, ao tempo que acena com nossa desnecessidade futura.

O que ler? O que escrever? O que gritar?

São tantas as vozes que nos atordoam com suas impossibilidades; pensamentos jogados na cela escura, sem água, espaço ou alimento… Escoamos rapidamente nossas 24 poucas horas.

Já ouço os pássaros na madrugada. Também sei que, em seu voo estabanado, muitos se estilhaçarão nas vidraças.

É a primavera que se adianta… na tentativa débil de felicidade.

Da amiga, também um tanto estranha,

AA