São Paulo, 30 de setembro

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Querida v.,

 

Desabafo. Você não lerá esta carta. Eu me esqueci, esqueço com frequência, da volatilidade do tempo. A vida, nua, anda ligeira; não dá segunda chance.

Queria dizer que está tudo bem por aqui, que não se preocupe, que a gente dá um jeito nisso tudo. Aprendi com você sobre essa coisa de enfrentar a incerteza: sobre o tempo da plantação e sobre o descanso da terra; sobre a erva daninha e sobre a proveitosa colheita. Eu sei, o dia seguinte chega… Esperança nova para pensamentos cansados.

Você não lerá nada disso, porque entre os compromissos de ontem, de hoje e dos que eu sabia que teria amanhã, entre a festa e a preguiça, entre a vigília e o sono, esqueci de dizer que te amo.

Você não lerá sobre o quanto sofri antecipadamente a sua perda.  E sobre o vazio do dia em que ela finalmente chegou. Eu não te disse nada. Também não escrevi, não liguei, e nem fui aí dizer pessoalmente depois de um abraço forte.

É por isso que você não saberá desta dor que sinto. Ainda bem. Você não gostava nada-nada de  ver alguém sofrer.

Ainda assim, a saudade permanecerá aqui por muito tempo, marcada com ferro em brasa no coração em branco.

 

Adriana Aneli

 


Projeto Scenarium 6 missivas | Setembro -18
Participam: Lunna Guedes Maria Vitória | Mariana Gouveia | Obdulio Nunes Ortega

 

Plural Crepúsculo |O crepúsculo dos deuses

Plural Crepúsculo, 2015

Trabalha naquilo antigo enquanto o mundo se move.
Para o centro de sim mesmo, como se todos os pontos
em que trabalhas fossem o centro do mundo.
— Herberto Helder —

 

Eu compunha poemas em um caderno. Ali, fechadinha no meu quarto. Eu tinha 14 anos e lançava meu primeiro livro, Jogo da Vida. O ano era 1990 e tudo o que sei é que, de repente, eu me vi enfrentando o pânico atávico da minha timidez, nos corredores da Bienal Internacional do Livro.

As coisas não acontecem por acaso ou os livros têm o seu destino… aprendi na carne. A sorte é caprichosa e só faz o que quer. Entre convites, reportagens, recitais, livros, feiras de literatura e programas de rádio foi proferida a sentença: menina prodígio — condenação transitada em julgado; como viver a própria vida?

O pianista Itzhak Perlman se referindo a jovens prodígios da música observa que, ao ouvir uma criança de 10, 8, 2 anos tocando lindamente, logo pensa: quero ver o que ela estará tocando aos 20.

Prodígios arrastam vida afora seus grilhões. Cada passo é marcado pela tornozeleira eletrônica da vaidade; vinte e quatro horas por dia, escoltados pelo grilo falante da autocrítica, jovens prodígios vivem tentando provar a si mesmos que o sentenciante não estava equivocado.

Chega-se aos 20 e então, tornou-se outro Mozart? Ou, aos 20, abandonou aulas e instrumento, já não quer mais saber de música? Para o escritor, parar de escrever era o grande risco? Ou deixar de ler, não publicar, não evoluir em seu estilo?

O que descobri chegando aos quarenta é que nunca fui prodígio: não deixei de escrever, de ler…. publicar, talvez menos. Ou então, descobri a tempo a saída da cela, aquilo que, na verdade, esqueceram de me contar: o que acontece com os jovens escritores prodígio? Eles envelhecem; ainda bem.

 


Publicação da Plural Crepúsculo Scenarium, em novembro de 2015

Plural Red | Road Movie

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Muito contrariada, aceitou o compromisso. Caía uma chuva miúda. Pediu a última poltrona, janela. Enfiou o rosto na cortina de veludo. Com todos os problemas moendo engrenagem, não queria conversar. Quando o motor ligou, sentiu o incômodo. Pensou na tortura das próximas horas. Aquela trepidação. Tentou achar outra poltrona vaga. Nada, o ônibus estava lotado. Fechou os olhos e passou a ruminar a estrada, seu tanto de cansaço e náusea.
O fim da chuva amornou a viagem. Acomodou-se para um cochilo… Quando se deu conta, a sensação já a tocava em pequenas ondas, uma tensão mínima, uma vontade intensa. Com um certo constrangimento, sentiu a umidade que a nublava. Pagou pra ver, abandonando-se, um pouco mais, naquele sacolejo.
A transformação reivindicou o corpo… Necessidade de expansão, de acomodação, manso e manso, um quase desespero que lhe aquecia as coxas, avermelhava as bochechas. Viu a si mesma, ansiosa, tomada, ingurgitada, intensa, uva madura, gosto de saliva a vinho, sangue na veia, o corpo cada vez mais inclinado intenso, intenso.
O orgasmo feminino consiste em contrações reflexas ritmadas dos músculos perivaginais e perineais que circundam a vagina, a intervalos de 0,8 segundos… leu na Marie Claire, eu acho… Deixava para trás a única vida que conhecia.

 


Publicação da Plural Red Scenarium, em agosto de 2015

Verbo Proibido

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“Fugir –
… fingir

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Este é um livro de cores suaves, amarrado com fita… O nome da autora vem delicadamente desenhado na capa, como era de se esperar do livro de poemas dos filhos… da Adriana; a vida em cetim azul… a delicadeza… Opa, espere! Melhor me demorar um pouco mais na capa: as letras em mosaico sugerem o tecido proibido. O Verbo e o aviso.

Ultrapasso; por minha conta e risco.

‘Verbo: proibido’, de Adriana Elisa, tem a aparência e o sabor do sonho que maturou ao seu tempo, por madrugadas e dias, adiado até a palavra arrumar as malas e partir em busca da identidade própria.

… que a felicidade
também foi feita para mim

Na fingida fuga pela independência, acompanho a transformação do cisne em patinho feio e seu esforço para se tornar este condor de garras afiadas e asas recém-criadas, pronto para o primeiro voo.

Estranha e incapaz de identificar os riscos, a persona se atira. E é entre amores e desamores, que alterna a lírica eufórica com travos amargos da frustração.
Descobrimos juntas, que quanto mais alto o grito, mais o verbo assusta. Adrianas pela madrugada: rastro colorido de poetas, comburidas na própria consciência.

… longe de caixas
compradas em farmácias”

Ela escreve porque a dor não se rompe com o corte do cordão umbilical. Nascidas para imergir neste mundo, sabemos que a poesia é oxigênio para mergulhos mais profundos. Ela se arrisca. Eu me arrisco ao lê-la, em queda livre, amparadas pela viscosa curiosidade do que ainda está por vir.

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Não dá pra voltar atrás.

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Adriana, a mãe.

 


~    Lançamento    ~
 07 | 07 | 18 — às 15h00

Soneto Café
Rua Dr. Camilo Hermelindo da Silva, 850
Jardim Caramuru, Dourados

MS

Para adquirir seu exemplar: https://scenariumplural.wordpress.com/compre-on-line/


 

“veredas”…

Querida L,

 

… A resposta começa mais tarde, neste dia silencioso de junho, em que o agito da cidade vacila. Nem sei ao certo por onde começar a semana, encarar o que resta do mês ou do ano.

Sou apenas eu. Não estamos todos assim… Estamos?

Seu verbo ir, não me parece fácil. Ando sem coragem, e me prendo ao conforto das coisas macias para horas que se provarão rudes. Banho morno, blusão de plush, café quente.

Notícias e desesperanças me parecem coisa antiga, eu te respondo. Leio A Peste, e nos vejo sobreviventes das mesmas páginas, o ciclo renovável da catástrofe. O ontem, o amanhã. Veja, L, que suas casas em pares perderam a batalha contra a segregação: the bosphorus istanbul residence surgiu por toda parte.

Talvez o sol aqueça mais quando o amanhã romper minhas nuvens. Talvez o exercício de ler seu mapa de vivências indique o caminho da poesia que teima em se afastar, nesta época em que aplico leis e normas jurídicas. O sertão é o mundo. E nisso você tem toda razão: é apenas mais um dia… E ele passa.

 

A.

 

L’art du vrai semblante

2017-11-24 18.07.34

Clique.
Com certeza você é melhor pessoa do que eu.

Clique. O recorte.
Cuidar da casa, do marido, dos filhos do casal.

Clique. O melhor ângulo.
— […] outro espécime capaz de dizer as palavras certas, de realizar os movimentos de encaixe, roubar o ar que respiro, o chão que eu piso. Me desabrigar

Clique. A melhor paisagem.
Feita a carvão, a história de personagens femininas se fortalece. Mulheres em rascunho bruto, rancor alcoolizado, dores que se perdem nos próprios labirintos de ideologia e renúncia, dúvidas, abandonos… Revanche em gosto requintado, obras de arte vivas em velhos casarões…

Em quatro atos se forjam as linhas de pensamento em Vermelho. Por dentro, onde a angústia dos personagens pulsa e o desejo vagueia por entre um passado que nunca se realiza e o futuro que não se pode esquecer.

Horácio, Mauro, Dário, Eva, Deborah, Cláudia, Susan, Anne… Os gêmeos, Lucca… estão ali, todos, mas sempre pela metade. Homens e mulheres que cumprem seu papel neste Museé de Grévin: passividade versus ebulição até que a paixão os liberte.

Não por acaso a mais fraca dos personagens é a única que se derrama em surto contínuo. Sem saber qual papel ocupar do lado de fora — e por esta mesma razão —, Cláudia arrasta todo o arredor de clichês para dentro de si — a força necessária para defender seu cúmplice mais vulnerável, o pai, contra sua oponente mais cruel, a mãe.

É neste mosto de mágoa e futilidade, que o aluvião arrasa qualquer esperança de paz entre os autômatos de uma sociedade que a todos modela, e os artistas da imagem que sobrevivem a essa maldição.

Em Vermelho não se pode esperar explicação para tudo. A intuição marca o ritmo deste romance que nunca revela exatamente como algo começa ou se acaba. A autora sabe que é na falta de redenção que sangra nosso vermelho mais denso: quanto ódio /diz /quanto ódio / não sabes / tens / dentro de ti…  

Clique. Um retrato por existir…
A poesia intensa nasce sob nossas máscaras. E cada personagem é um espelho a gritar nossas culpas.